sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O prefeito e os cortes na Cultura

 Foto: Carlos Carvalho Cavalheiro

                Lamentável. Essa é a única palavra que ocorre nesse momento para definir o sentimento em relação aos cortes anunciados pelo Prefeito Pannunzio e que atingem diversos setores, entre eles o Esporte e a Cultura. Em sua defesa, o prefeito argumentou que estava em vias de “infringir a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) ao gastar mais do que arrecada” (CRUZEIRO DO SUL, 10 ago 2016).
                Além disso, informou que “tanto o governo federal como o governo do Estado são devedores do município, [e] não estão honrando os compromissos assumidos” (Ibidem). Com isso, pretende-se que o dinheiro destinado à Cultura e ao Esporte seja destinado a outros setores como a Saúde. Pois bem, o argumento é válido e é óbvio que se passasse pelo crivo de uma pesquisa popular, um plebiscito, não haveria quem se dispusesse a contra-argumentar que os recursos públicos deveriam atender prioritariamente à Saúde. O argumento é consistente, é forte.
                Por outro lado, há questões que merecem uma atenção mais crítica. A primeira delas é em relação ao tempo em que o prefeito decidiu-se para tomar as “medidas impopulares”. A Lei de Incentivo à Cultura e o Prêmio Sorocaba de Literatura, por exemplo, ambos amplamente escorados em Leis Municipais, já haviam iniciado o seu processo seletivo. Pior, já estavam em fase de finalização. Ocorre que, tanto para um como para o outro caso, há por parte dos artistas todo um preparo, gastos e desgastes, correrias e pré-requisitos que têm de ser cumpridos para que se possa fazer jus a ambos. No caso do Prêmio de Literatura, por exemplo, antecipadamente, como pré-requisito da inscrição, o autor deve doar três exemplares do livro – alvo do processo de seleção – para o acervo das Bibliotecas Públicas. Isso foi feito. No caso da LINC, houve gastos com toda a documentação e todo o processo de formatação dos projetos. Além disso, salvo engano, a porcentagem destinada para custeio dos processos de avaliação e serviços administrativos, na ordem de 10% do orçamento total (o que corresponde a R$ 90 mil ) já foram gastos. Em suma, não era esse o momento de se suspender os recursos da LINC, do Prêmio de Literatura e outros. Até porque, o ônus de tal atitude é o descrédito em relação ao Poder Público, pois, ao menos em aparência, promete algo (abre o processo de seleção) e não o cumpre. Afinal, o argumento dado não era exatamente o fato de não se poder descumprir a Legislação vigente?
                Outro fato que pesa contra essa atitude é o argumento de que o governo federal e o estadual não estão cumprindo com os seus deveres. Pelo que consta, ambos o governo federal é aliado do PSDB. O estadual é do mesmo partido do municipal! É questão de “fogo amigo”? Quão amigo é esse “fogo”? Ora, não é o caso de se ingressar com Ação judicial contra o descumprimento dos compromissos assumidos por esses governos? Não havia como prever, com antecipação adequada, que o descumprimento desses governos acarretaria problemas no orçamento do município? Por que não?
                Por fim, é importante salientar que o problema na arrecadação e na área da Saúde não é recente. Há tempos que os reclamos da população em relação ao atendimento da Saúde vêm pautando a atuação nessa área. Por que somente agora é que se pensou em “solucioná-los”? Aliás, em termos exatos, o que desses cortes será de fato destinado à área da Saúde? Seria bom que soubéssemos a fim de acompanharmos pari passu tais investimentos. Também é fato que numa cidade onde haja mais investimento em cultura e em esporte (além da educação) a necessidade de investimentos em Saúde é bem menor. Por outro lado, com relação à redução da arrecadação, os cortes somente pioram a situação. Somente a LINC e o Prêmio Sorocaba de Literatura – para não citar outros como o Prêmio de Música – movimentam o comércio e a prestação de serviços, ampliando demasiadamente a arrecadação. Enfim, resta apenas a esperança de que venham dias melhores e que talvez apareça algum “mecenas” (quem sabe um consórcio de industriais e comerciantes) que consigam ainda salvar essa situação.

Carlos Carvalho Cavalheiro

15.08.2016

domingo, 7 de agosto de 2016

Mais um cowboy que se foi...

Fonte da imagem: http://br.ign.com/cinema-tv/30002/news/ator-bud-spencer-morre-aos-86-anos

          Há três anos um acidente de carro pôs fim à vida de Giuliano Gemma, ator que ficou mundialmente conhecido por participar de filmes italianos de faroeste, ou seja, os westerns spaghettis como também eram chamados. O gênero tomou corpo quando o diretor italiano Sérgio Leone teve a idéia de contar suas fábulas ambientadas no velho oeste estadunidense em meados da década de 1960.
          No início, tanto os diretores quanto os atores utilizavam nomes em inglês, uma forma de tornar “palatável” os filmes para o público radicalmente exigente. Assim, Giuliano foi apresentado no começo da carreira como Montgomery Wood e só usou o próprio nome quando sua carreira se consolidou e não havia mais nada a provar para ninguém. O mesmo ocorreu com Gian Maria Volonté que teve seu nome mudado para Johnny Wels. O brasileiro Antonio de Teffé era conhecido como Anthony Steffen, Mario Girotti ainda é conhecido como Terence Hill e até o diretor Sérgio Leone teve de assinar seu primeiro faroeste como Bob Robertson. O filme, “Por um punhado de dólares” (1964), inspirado no filme japonês Yojimbo, deu o pontapé para que esse gênero cinematográfico se alastrasse pelo mundo e ajudou a consolidar as carreiras de atores como Clint Eastwood e Gian Maria Volonté.
          No começo desta semana outro dos “cowboys” italianos nos deixou. Carlo Pedersoli, ou Bud Spencer, pseudônimo pelo qual se tornou famoso, faleceu na segunda-feira, dia 27 de junho de 2016, em Roma (Itália), aos 86 anos de idade. A sua morte esvazia o rol de atores vivos daquela época. Restam poucos atores vivos de destaque que participaram dessa História: Clint Eastwood, Terence Hill e Franco Nero são alguns desses nomes.
          Bud Spencer tornou-se célebre ao se tornar parceiro de Terence Hill em filmes que valorizavam o humor e a pancadaria no Velho Oeste. Com corpo avantajado, a presença de Bud Spencer nos filmes deixava claro que seus inimigos não teriam chance nas brigas. Reza a lenda que o ator escolheu o nome baseado em duas referências:  Bud teria vindo de Budweiser, a cerveja predileta dele, e Spencer seria uma homenagem ao ator Spencer Tracy.
          Além de estrelar a dupla com Terence Hill, o ator Bud Spencer participou de outros filmes de faroeste como “O Exército de 5 homens” e “Deus perdoa... eu não”.  Spencer viveu alguns anos no Brasil, trabalhando pelo consulado italiano, oportunidade em que aprendeu a falar português. Em entrevista realizada no início da década de 1980 no programa “Os Trapalhões”, Bud Spencer conversou em português com Renato Aragão e sua turma.
          Bud Spencer fez ainda filmes de ação/comédia com Terence Hill, dos quais se destaca “Dois Super-Tiras em Miami” (1985) e “Banana Joe” (1982). Em 1994 voltou ao tema do faroeste com o filme “Os encrenqueiros”, uma revisita aos tempos de Trinity. O ator nasceu em 31 de outubro de 1929, em Nápoles, Itália. De acordo com seu filho, em comunicado à imprensa, “Papai se foi pacificamente, às 18h15. Ele não sofreu, estávamos todos ao seu lado e sua última palavra foi 'obrigado'". Bendita a vida que se finda em agradecimento. Sorte nossa, também, que conhecemos – e rimos e nos emocionamos – com a atuação desse grande artista. O céu está estrelado... São estrelas de xerifes do Velho Oeste... Ou balas de prata cuspidas dos revólveres dos anti-heróis, característica máxima dos westerns spaghettis.

Carlos Carvalho Cavalheiro

28.06.2016

João do Rio e “Bem Porto”



                A edição nº 19, de dezembro de 2015 da Revista Bem Porto (da cidade de Porto Feliz) trouxe na matéria de capa o tema “Todos pela paz”, contendo uma visão de algumas doutrinas filosóficas e religiões da cidade. Interessante material de reportagem – e pesquisa – que abordou visões da Igreja Católica Apostólica Romana, da Umbanda (com entrevista de Izabel Gonzaga, a última Ialorixá da Tenda de Umbanda “Vovó Catarina”), do Espiritismo (Kardecismo), da Igreja Presbiteriana Luterana, do Ateísmo, da Igreja do Evangelho Quadrangular, da Maçonaria, da Igreja Evangélica Pinheiros e da Fé Bahá’í.
                De acordo com a mesma publicação, “A Revista Bem Porto entrou em contato com todas as igrejas, religiões, seitas, filosofias esotéricas e espiritualistas que encontrou na cidade de Porto Feliz. Muitas, por questões doutrinárias, preferiram não participar, e outras, até o fechamento desta edição, não responderam. Todos os que se dispuseram a participar tiveram seu espaço garantido”. Esse trabalho lembra muito aquele realizado pelo jornalista João Paulo Barreto, que escreveu uma série de artigos sobre o universo religioso do Rio de Janeiro do início do século XX, todos assinados com o pseudônimo de João do Rio. Posteriormente, essas reportagens da Gazeta de Notícias foram compiladas no livro “As religiões no Rio”, um sucesso de público e de crítica por trazer os meandros das práticas religiosas e filosóficas presentes na então Capital do Brasil.
                A religião sempre aguçou a curiosidade das pessoas e, nesse sentido, o interesse pelo assunto se pode medir pela venda de publicações – em todos os suportes – que tragam fatos inusitados sobre as diferentes crenças. O brasileiro é um povo inclinado à religiosidade e, ainda, ao sincretismo, à mistura de doutrinas e preceitos que dão vida a novas formas de relacionamento do humano com o sobrenatural.
                A História das religiões, ou mesmo das denominações religiosas aguçam a curiosidade.  Fatos interessantes chamam a atenção sobre o tema. Por exemplo, o fato de o primeiro pastor evangélico do Brasil ter feito pregações em Porto Feliz no século XIX. Trata-se de José Manoel (ou Manuel) da Conceição, que fora ordenado padre católico, mas converteu-se, posteriormente, ao protestantismo, sendo um pregador itinerante. Manoel da Conceição viveu por anos em Sorocaba e, após a sua conversão ao protestantismo, peregrinou por várias cidades. Émile G. Leonard, que realizou um interessante estudo do protestantismo no Brasil, publicado na Revista da USP em 1952, diz que fugindo da perseguição policial, o pastor realizava pregações em cidades do Vale do Paraíba, e em outubro de 1866 ele realizou pregações nas cidades de Cotia, Ibiúna, Piedade, São Roque, Piracicaba, Porto Feliz, Itu e Brotas. O dia de sua ordenação, em 17 de dezembro de 1865, é considerado como Dia do Pastor Presbiteriano.
                Outra curiosidade é em relação à Congregação Cristã do Brasil, fundada em 1910, e que em 1933 aparece em seu relatório de templos o de Porto Feliz, conforme atesta Yara Nogueira Monteiro num artigo publicado em 2010 com o título: “Congregação Cristã no Brasil: da fundação ao centenário – a trajetória de uma Igreja brasileira”.
                O fundador do Instituto da Filhas de São José, o padre Luís Carbulloto, foi beatificado em 2015. Esse padre veneziano fundou o Instituto em 1850 e próximo de sua morte, manifestou o desejo de que a obra que criou fosse levada ao Brasil. Por isso, em 1927 ”as irmãs Filhas de São José iniciaram um trabalho educativo em um casarão antigo no interior de São Paulo, com crianças e adolescentes de baixa renda, desde a educação infantil até o ensino médio. A Escola São José de Porto Feliz, que carrega o lema “Amar Educando e Educar Amando”, em atividade desde 1934, também oferece curso de bordado e alfabetização para adultos”, de acordo com matéria publicada no jornal capivariano “O Semanário”. O padre beatificado, então, possui uma ligação – ainda que indireta – com Porto Feliz.
                Em relação à Apometria, Porto Feliz conta com um dos mais conceituados grupos do Brasil. Trata-se do Grupo de Apometria de Porto Feliz - Fraternidade Cristã Kardecista, localizado na avenida Dr. Antoninho, e que tem seu registro de CNPJ desde dezembro de 2003. A Apometria é, segundo a Wikipédia, “um conjunto de praticas com objetivo de cura, normalização corporal e conscientização do envolvimento energético, no qual os seres humanos estão imersos”. 
                Por fim, é curiosa a polêmica envolvendo a igreja católica e o visconde de Taunay, em fins da década de 1880. O jornal católico “O Apóstolo”, de fevereiro de 1889, traz a tona a controvérsia alegando que o visconde perseguia a Colônia Rodrigo Silva, formada por belgas em Porto Feliz, por esta ter sido organizada pelo padre católico VanHesse (ou VanEsse). Esse fato, encontrado pelo jornalista Gustavo Barreto, mostra o conflito que se estabeleceu entre o senador Visconde de Taunay e a Igreja Católica, pelas críticas do primeiro em relação à organização de imigração em mãos clericais.
                A pesquisa sobre as religiões – ou doutrinas e filosofias religiosas – não é apenas fato curioso, mas, também um indicador da forma de agir e pensar de um povo. Serve, portanto, para mostrar o quanto somos diversos e que na diversidade reside a beleza da mensagem máxima das religiões: a Paz.

Carlos Carvalho Cavalheiro

02.01.2016

A morte da política



            O ministro do STF Luís Roberto Barroso, em audiência com seus alunos, aparentemente não percebendo que suas manifestações eram gravadas, deixou escapar a sua insatisfação em relação à falta de alternância nos governos e disparou a frase: “a política está morta”.
            Apesar de chocar num primeiro momento, a frase de Barroso revela não somente uma percepção daqueles que acompanham as notícias políticas, mas também daqueles que analisam a democracia brasileira na atualidade. Aliás, o Brasil sempre teve crise de identidade política. No Império dizia-se que a diferença entre liberais e conservadores era somente o exercício do poder, ou seja, um liberal era muito parecido com um conservador quando ambos estavam no comando. Durante os primeiros anos da República o Brasil criou o que parecia ser inimaginável: uma República Oligárquica. Isso porque, na própria etimologia de ambos os termos aparece a contradição. Na república (res publica, do latim), a forma de governo pressupõe que o poder emana do povo e tem por objetivo o bem comum, a “coisa pública”. Na Oligarquia, ao contrário, um pequeno grupo governa visando apenas seus interesses e não o da coletividade, não o bem comum.
            Em meados da década de 1980, passado o horror da ditadura militar, o Brasil tomou o caminho oposto ao extremo. Em vez da falta de partidos ou do bi-partidarismo do final da ditadura, a democracia brasileira defendeu a idéia do pluripartidarismo, conforme reza a Carta Magna. Até aí, tudo bem. Não haveria problema algum se houvesse certo rigor na criação de partidos. Hoje se tem partidos para tudo: aposentados, militares (ainda não oficializado), indígenas, mulheres... São 35 partidos registrados no TSE e outros tantos que ainda buscam a legalização. Somente os partidos que carregam em sua sigla o termo “Trabalhista” temos 5: PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO (PTB), PARTIDO DEMOCRÁTICO TRABALHISTA (PDT), PARTIDO TRABALHISTA CRISTÃO (PTC), PARTIDO TRABALHISTA DO BRASIL (PT do B), PARTIDO RENOVADOR TRABALHISTA BRASILEIRO (PRTB), PARTIDO TRABALHISTA NACIONAL (PTN). Partidos que pretendem atuar em causas ambientais são 4: Partido Verde (PV), Rede Sustentabilidade (Rede), Partido Ambientalista Nacional (PAN) e Partido Ecológico Nacional (PEN).  Há dois Partidos Comunistas reconhecidos pelo TSE e outros na clandestinidade, ainda.
            Acontece que uma multiplicidade irrestrita, com propostas que deveriam ser semelhantes – ou convergentes – favorece apenas uma coisa: a negociação com diversas siglas para se obter maioria de votos que garantam um mínimo de governabilidade. Nas eleições de 2014, por exemplo, 28 partidos tiveram pelo menos 1 candidato eleito. Impossível ao chefe do Executivo obter maioria sem negociar com significativa parte dessas legendas. Isso porque a nossa Constituição foi promulgada pensando-se numa possível mudança da forma de governo para o Parlamentarismo. Consequência disso é que vivemos hoje num sistema em que a figura do presidente da República é quase que refém do Congresso.
            Parte do descontentamento do ministro Roberto Barroso vem desse quadro que se nos apresenta, de um número irrestrito de partidos políticos, muitos dos quais com dificuldades em definir sua ideologia ou distinguir seu programa de ação.
            Nesse sentido, a política – como a arte de bem governar os povos ou como a ação em benefício da comunidade – se esvai, ou como disse o ministro Barroso, morre e deixa em seu lugar o balcão de negociatas. E pior: abre espaço para outras supostas “alternativas”: o movimento pelo retorno da monarquia vem se fortalecendo ao mesmo passo em que se robustece, também, o que clama pela intervenção militar. Se a política está morta hoje, amanhã poderá ser enterrada.


Carlos Carvalho Cavalheiro

04.03.2016

sábado, 30 de julho de 2016

Quem ama mata?

A Tribuna das Monções, jornal da cidade de Porto Feliz, em sua última edição, do dia 19, noticiou em primeira página tentativa de homicídio com o título “Amor termina na ponta da faca”. Em fins da década de 1970 e início da de 1980 uma onda de crimes passionais chamou a atenção da opinião pública, gerando uma comoção nacional que se celebrizou a partir do slogan “Quem ama não mata”.
Um dos crimes dessa época – e que tomou as atenções da mídia – foi o assassinato de Angela Diniz, morta por ciúmes pelo seu companheiro, o playboy Doca Street. Todo esse contexto motivou a Rede Globo a criar uma minissérie em 1982, justamente intitulada “Quem ama não mata”. O horror aos crimes passionais, com ranços de extremo machismo patriarcal que era a tônica da nossa sociedade, fez com que ocorresse uma mudança de consciência. Até então, era comum a absolvição, por exemplo, do réu homem que assassinasse sua esposa por infidelidade. Alegava-se, na época, a “defesa da honra” do assassino que passava de réu a vítima, de ofensor a ofendido.
Estranhamente, crimes assim continuam a ocorrer. O amor em algum momento na relação acaba-se confundindo com o ódio e as pessoas continuam a se agredir – e a se matar – por “amor”.

Uma pesquisa rápida pela internet mostra que esse tipo de crime pode ser, ainda hoje, mais comum do que se imagina. Numa reportagem assinada por Natália Von Korsch para o portal Terra, especialistas afirmam que “Qualquer pessoa que ama pode matar por amor” (http://saude.terra.com.br/qualquer-pessoa-que-ama-pode-matar-por-amor-dizem-especialistas,e6188c3d10f27310VgnCLD100000bbcceb0aRCRD.html).

 Nessa reportagem, Talvane de Moraes, especialista em psiquiatria forense diz que apesar de ser a paixão um sentimento comum a todos os adultos, o crime passional ocorre quando a pessoa não consegue se controlar. Já Eduardo Ferreira Santos, outro psiquiatra ouvido pela repórter, aponta características comuns a quem comete crime passional, tais como “profundo egoísmo, dependência do outro e ciúme doentio, a ponto de não enxergar vida além da relação afetiva. Quando se sentem humilhados ou prestes a serem abandonados, matam quase que por instinto de sobrevivência. O crime passional, diferentemente do assassinato por conveniência, jamais é planejado com antecedência”. 

            De acordo com Tatiana Ades, do Portal UOL, a cada cinco dias uma mulher é assassinada por ciúmes em Belo Horizonte. No país como um todo a estatística é de dez mulheres mortas por dia. Essa reportagem trouxe o mesmo perfil dos criminosos: “ciúme, egocentrismo, ódio, possessividade, prepotência e até vaidade, o que leva a um incontrolável desejo de vingança” (http://www2.uol.com.br/vyaestelar/ama.htm). Da mesma forma, a reportagem deixa claro que “o crime passional é gerado pela impulsividade, diferentemente do psicopata que planeja o crime friamente”.

            Se atentarmos para os “valores” cultuados pela sociedade de consumo em que vivemos, talvez possamos entender porque uma espécie de crime que revoltou tanto as pessoas em décadas passadas, aparentemente volta a se tornar comum no Brasil. Afinal, o sentimento de posse, a reificação (ou coisificação) das pessoas, o egoísmo extremado são inerentes a esse tipo de sociedade. E é assim que, com um televisor à frente dos olhos e um programa de passeio semanal apenas a Shoppings, que estamos transformando as crianças em consumidores, em possuidores de mercadorias, em pessoas que valorizam o “ter” em vez do “ser”.

            Uma frase atribuída ao ator e diretor Clint Eastwood, amplamente divulgada nas redes sociais, sintetiza um pouco esse momento em que vivemos: “Todo mundo fala em como deixar um planeta melhor para nossos filhos. Na verdade deveríamos tentar deixar filhos melhores para o nosso planeta”.

 

 

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

22.02.2016

 

 

 




Sobre a Teologia da Prosperidade (II)

Fonte da Imagem: https://estrangeira.wordpress.com/2016/02/11/agenor-duque-um-neofito-no-universo-neopentecostal/

            Certamente, alguns poderão argumentar que a Teologia da Prosperidade está, de fato, de acordo com os ensinamentos bíblicos. Por exemplo, a própria Bíblia diz que Jesus afirmou: “eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (Jo. 10.10). Então, como é que fica? Ter vida em abundância não é viver com o que é além do necessário para uma vida digna? Não é viver com riqueza material e financeira?
            A vida em abundância, aqui tratada, é a vida eterna com Jesus. No Evangelho de João, capítulo 5, versículos 39 e 40, Jesus esclarece que os homens de sua época examinavam “as Escrituras, porque vós [eles] cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; E não quereis vir a mim para terdes vida”.
            A mensagem é espiritual, portanto. Não é um chamamento para o “paraíso” na Terra. Nem mesmo para que se tenha excesso de bens materiais e financeiros, a despeito das condições de vida das outras pessoas. O Reino não é deste mundo! (Jo. 18.36). Ao contrário, o verdadeiro cristão doa o que tem em benefício de outrem. Os cristãos primitivos, por exemplo, vendiam todos os seus bens e repartiam entre si o que tinham e dividiam o dinheiro com todos “de acordo com a necessidade de cada um” (At. 2.44 – 46). Qual a justificativa para dizer que os cristãos atuais são “melhores” do que os primeiros? Por que aqueles pioneiros deveriam vender suas propriedades e repartir com todos, enquanto que os atuais precisariam apenas se preocupar em enriquecer?
            Uma das passagens deveras citadas pelos adeptos da Teologia da Prosperidade com o intuito de afirmar a coadunância com o texto bíblico está em Malaquias: “Trazei o dízimo todo à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e provai-me nisto, diz Jeová dos exércitos, se não vos abrir eu as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção até que não haja mais lugar para a recolherdes” (Malaquias 3.10). O texto é bastante apropriado, porquanto traz em seu bojo a idéia da compensação, ou seja, as bênçãos de Deus serão de acordo com a entrega do dízimo. Dessa forma, a arrecadação das instituições tende a ser altas na medida em que os fiéis são estimulados a colaborar para receber algo em troca. No entanto, do ponto de vista teológico, o problema maior aqui reside no fato de ser uma citação do contexto do Velho Testamento. O Livro de Hebreus ensina categoricamente que a Lei (Antigo ou Velho Testamento) foi substituída pelo Novo Testamento (ou Nova Aliança) e que, por isso, as dádivas e sacrifícios oferecidos aos sacerdotes, de acordo com a Lei (Antigo Testamento) “é cópia e sombra das realidades celestes” (Hb. 8.1 – 5). E o mesmo texto acrescenta: “Possuindo apenas a sombra dos bens futuros, e não a expressão própria das realidades, a Lei é totalmente incapaz, apesar dos mesmos sacrifícios sempre repetidos, oferecidos sem fim a cada ano, de levar a perfeição aqueles que deles participam” (Hb. 10.1). Em suma, o que trata da Lei (Antigo Testamento) não serve de parâmetro para quem vive (ou diz viver) dentro da Nova Aliança. Buscar uma referência no Antigo Testamento para justificar uma idéia atual é o mesmo que apoiar o apedrejamento de mulheres consideradas adúlteras só porque consta na Lei mosaica!
            Igrejas superlotadas também não são sinais de benção e muito menos a simples proclamação de que Jesus é Senhor são suficientes para identificar uma igreja como verdadeiramente cristã (no sentido teológico). “Nem todo aquele que me chama “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas somente aquele que faz a vontade de meu Pai, que está no céu” (Mt. 7.21). E qual é a vontade do Pai? Sobre o final dos tempos, mais uma vez, Jesus afirmou que muitos ficarão surpresos em serem condenados porque deixaram de ajudar as pessoas mais humildes e necessitadas (Mt. 25.31 – 46). Por isso, afirma Jesus, que muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mt. 22.14). Sentar no banco de um templo ou igreja não garante a salvação. Ser chamado, ou seja, ouvir a palavra não é garantia de salvação. A garantia está na prática daquilo que se ouve. A figueira que não dá frutos é inútil.
            Tiago também condena a sede de riqueza que faz com que as pessoas se desviem do objetivo principal que é a reconciliação com Deus. No capítulo 5 de seu livro, Tiago diz que aqueles que viveram deliciosamente sobre a terra, se deleitando com as riquezas, irão, depois, chorar e prantear sobre as misérias que hão de vir (Tg. 5). As riquezas estarão apodrecidas, as vestes comidas de traças e ouro e prata estarão enferrujados dando testemunho contra aqueles que se fascinam pelas riquezas materiais e financeiras (Tg. 5). A mesma mensagem de Cristo que no Sermão da Montanha pediu para que não acumulasse tesouros que seriam corroídos pelo tempo (Mt. 6). É por isso, também, que o Cristo falou da dificuldade de um rico entrar no reino dos céus (Mt. 19.23 – 24). E, ainda, lamentou-se dizendo: “Ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação” (Lc. 6.24).
            Aquele, pois que quiser, continue buscando com ansiedade a riqueza material. Mas saiba que já teve a sua recompensa. Ganhou o mundo todo, mas perdeu a sua alma (Mc. 8.36).


Carlos Carvalho Cavalheiro

04.01.2015.

Sobre a Teologia da Prosperidade (I)



Fonte da Imagem: https://afeexplicada.wordpress.com/2015/08/29/mentes-manipuladas-pela-teologia-da-prosperidade/


            Dados do Censo do IBGE apontam um substancial crescimento das igrejas cristãs chamadas genericamente de evangélicas. Em dez anos o número de evangélicos no Brasil saltou de pouco mais de 26 milhões de brasileiros para quase 43 milhões, o que representa um aumento de 61,45% (IBGE, 2010). Esses dados foram divulgados em 2012, embora se referissem ao Censo de 2010.
            Curiosamente, no senso comum, quando se fala em “evangélico” a primeira associação que se faz é com o televangelismo, iniciado na década de 1980, e que tem como principal sustentáculo a chamada Teologia da Prosperidade ou Evangelho da Prosperidade (ou ainda, Confissão Positiva, Palavra da Fé, Movimento da Fé, Evangelho da Saúde e da Prosperidade, entre tantos outros). No entanto, os dados do IBGE mostram que dentre as igrejas evangélicas que mais adeptos possuem, as que ocupam os três primeiros lugares não são, a princípio, igrejas fundamentadas nesse modelo de Teologia. O site Evangelização.blog.br aponta a liderança disparada da Igreja Assembléia de Deus que conta com mais de 12 milhões de membros, seguida da Igreja Batista que contabiliza mais de 3 milhões de fiéis e da Congregação Cristã com 2,3 milhões.
            Mas o que é a Teologia da Prosperidade? Segundo a Wikipedia, a Teologia da Prosperidade é uma “doutrina religiosa cristã que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos e que a , o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel”. O mais conhecido – e, talvez, o maior – divulgador dessa doutrina foi Kenneth Erwin Hagin que, segundo consta em suas biografias amplamente divulgadas, teria sido curado de um problema cardíaco quando interpretou a passagem de Marcos 11.23-24 com o sentido de que a fé deveria ser liberada a partir do pronunciamento das palavras, pois o próprio texto assinalava a presença maior do verbo “dizer” o que o verbo “crer”: “Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito. Por isso, vos digo que tudo o que pedirdes, orando, crede que o recebereis e tê-lo-eis”. No entanto, as idéias de Hagin sobre a fé liberada ou confissão positiva não eram originais. Essek William Kenyon (1867-1948) foi evangelista de origem metodista que defendia a idéia teológica de que “O que eu confesso, eu possuo”. Em verdade, Essek Kenyon criou um sincretismo entre o pentecostalismo e visões metafísicas e místicas advindas de denominações religiosas que freqüentou como a Ciência Cristã.
            No que se funda a Teologia da Prosperidade? Essa Teologia afirma que os que são verdadeiramente fiéis a Deus devem viver em prosperidade, ou seja, em excelente situação financeira, profissional e de saúde. No Brasil, é comum os adeptos dessa Teologia afirmarem que a prosperidade significa riqueza material. Então, o principal motivo para se tornar cristão é a busca pela riqueza material, a cura de doenças e a libertação dos demônios. A salvação da alma..., bom isso fica para depois. O que aparenta ter importância para os adeptos da Teologia da Libertação é o agora, é o viver neste mundo com riqueza financeira e boa saúde para poder usufruir dos benefícios do dinheiro.
            Sem pretender atacar nenhuma denominação religiosa, o que se pretende com este artigo é debater tais conceitos em comparação com a Teologia Bíblica tradicional. De fato, riqueza em si não é pecado. A Bíblia diz que José de Arimatéia, um dos seguidores de Jesus, era rico (Mt. 27.57-58). No entanto, a busca pela riqueza afasta os homens de Deus e, por isso, pode se converter em pecado (aqui no sentido original da palavra “hamartia” ou “hamartano” que significa “errar o alvo”, ou seja, desviar do objetivo de Deus). Sobre isso Jesus disse no Sermão da Montanha: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt. 6.24). E acrescentou que: “Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. [...] Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua Justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt. 6.25, 33). Também disse Jesus que não deveríamos “ajuntar tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu” (Mt. 6.19). No Evangelho de Lucas, o Nazareno aconselha ao rico para que vendesse tudo o que possuía e distribuísse aos pobres, pois assim teria um “tesouro no céu” (Lc. 18.18 -23). A mensagem central do cristianismo é a regeneração do homem, ou seja, a sua salvação e reconciliação com Deus. No Evangelho de Marcos, Jesus pergunta: “Portanto, de que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc. 8.36).
            O que seria a prosperidade, então, se não for a riqueza material? Parece que prosperidade é ter tudo aquilo que é necessário para uma vida digna. Nem mais, nem menos. Jesus enviou seus discípulos em uma comissão, de dois em dois, e aconselhou que não levassem nada. Em ocasião oportuna, perguntou a esses se algo havia lhes faltado, do que responderam que nada faltara. Portanto, estavam atendidos por Deus em suas necessidades (Lc. 22.35). É o mesmo entendimento de quando, no Sermão da Montanha, Jesus disse dos lírios do campo e da inutilidade da preocupação com os bens materiais (Mt. 6). Aqueles que ostentam riquezas materiais, “já receberam a sua recompensa” (Mt. 6.2). Mesmo as curas extraordinárias não são insígnias dos que verdadeiramente são cristãos. Jesus advertiu que no final dos tempos, muitos dirão a Ele: Senhor, não foi em teu nome que profetizamos, expulsamos demônios e fizemos muitos milagres?. E Jesus apenas responderá: “Nunca vos conheci” (Mt. 7.22 – 23).

Carlos Carvalho Cavalheiro – 04.01.2015.