sexta-feira, 10 de julho de 2026

O último bonde

 

Carlos Carvalho Cavalheiro e Maria Monteiro Zamboni. Foto: Patrícia Campos

A proximidade física com os anciões é uma oportunidade para a reflexão do caminhar por essa estrada aventureira que é a vida. Afinal, ao alcançar a senectude, a pessoa colecionou durante anos diferentes e diversas experiências, agradáveis ou não. E pela oportunidade de viver múltiplas emoções, essa alma vai se forjando como o aço mergulhado na brasa: é preciso amolecer um pouco para retornar mais resistente.

                Tive a oportunidade de conhecer a dona Maria Monteiro Zamboni, mulher que foi operária têxtil e sindicalista, e que já anota em seu calendário a marca dos 101 anos (talvez, 102, como explicarei melhor adiante). A ocasião para que eu pudesse conhece-la foi proporcionada pela professora Patrícia Campos. Maria Monteiro é avó paterna do esposo de Patrícia.

Quando perguntei a dona Maria Monteiro Zamboni sobre sua vida, ela começou falando da testa. Havia batido a cabeça na ponta de um móvel. Sorriu. Depois reclamou dos olhos. Em seguida, do ouvido. Era como se o corpo, aos cento e um anos, apresentasse um relatório das peças que o tempo havia desgastado. Mais do que isso, do desgaste de quem trabalhou por anos dentro de uma fábrica sob o regime da exploração do trabalho.

Mas bastou começarmos a falar da fábrica para que algo extraordinário acontecesse. A memória voltou a enxergar. Os ouvidos voltaram a escutar. O corpo pareceu esquecer a idade. De repente, já não estávamos mais em 2026.  Era madrugada. Cinco horas. O bonde dos homens chegava primeiro. Poucos minutos depois, vinha o das mulheres. Ninguém precisava explicar aquela ordem. Ela fazia parte da engrenagem da cidade, como os trilhos, as sirenes e as chaminés.

“Eu nasci em São Roque”, revela dona Maria. “Eu nasci... No meu registro está em 1925, né? É, 25. Mas eu... Eu acho que eu... Fico assim, pela minha idade... Eu já estou entrando no 102. Agora em setembro. Mas já estou com 101”. História comum a muitas outras pessoas, o registro oficial nem sempre acompanha a data real do nascimento. Sendo uma obrigação que gerava custos, o registro era um empecilho para as famílias menos abastadas, sobretudo se considerarmos que as despesas extras já contabilizadas a partir do surgimento de mais um membro da família. “Eu ouvia o meu pai falar... Que na época que eu nasci... Ele esteve doente, então ele registrou eu... Um pouco mais atrasada. Mas pelo modo que eles falaram... Eu nasci em setembro de 24”.

De São Roque... Eu fui pra... Morei um pouco em Mairinque, com meu pai... Depois de Mairinque, que meu pai trabalhou um pouco lá na fábrica... Aí mudei, foi pra Ipanema. Do Ipanema... Fiquei uns três anos lá... Aí tivemos aqui em Votorantim. E aqui em Votorantim... Eu vim aqui quando eu tinha 15 anos. Eu vim nessa cidade aqui. Daí eu entrei na fábrica...”.

Dona Maria iniciou seu trabalho como operária em 1940, já sob um regime de trabalho menos severo do que o vivido pelos seus antecessores. A Constituição de 1934, no período da Era Vargas, incorporou no seu artigo 121, a alínea “d”: prohibição de trabalho a menores de 14 annos; de trabalho nocturno a menores de 16; e em industrias insalubres, a menores de 18 annos e a mulheres.

Alguns anos antes, crianças de 8 ou 9 anos trabalhavam em fábricas com jornada semelhante à dos adultos. Na época de dona Maria, a exploração era menor, mas não inexistente. Talvez, ocorresse de maneira mais sutil.

Ao abrir o portão, milhares de trabalhadores atravessavam juntos aquele rito cotidiano.

Cada qual seguia para sua seção. Tecelagem, Estamparia, Fiação... Era uma cidade inteira entrando para trabalhar. De acordo com a memória de dona Maria Monteiro Zamboni, havia cerca de 8 mil trabalhadores!

Dona Maria ainda sabe exatamente onde ficavam as máquinas. Lembra-se dos cones de fios. Das horas marcadas pelo relógio da produção. Das peças que quebravam e faziam diminuir o salário. “Nós tinha... Meia hora de almoço só... A cada uma... Tinha duas máquinas. E ali nós cuidávamos do fio. Aquele fio que nos aprontava na máquina... Ia pra outra sessão... De lá ia pra terceira sessão. Mas era corrido. E a máquina tinha... Era por relógio. Quanto mais a máquina virava, fazia ponto. E se a máquina não virava, não fazia ponto. E nós ganhávamos por ponto. E quando as máquinas paravam pra um concerto de uma peça... Nós perdíamos tempo. Mas foi uma luta”.

Luta. Esse é um termo constante na narrativa de dona Maria Monteiro Zamboni. E deveras significativo. A vida, para quem trabalhou dentro de fábricas, sempre foi uma luta. Luta pela existência, luta pelo reconhecimento, luta pela valorização e, ao fim, a luta pelo direito à memória. As ruas e praças estão repletas de nomes de industriais capitalistas. O reconhecimento de que contribuíram, de alguma maneira, para a formação da cidade está sedimentado em monumentos e homenagens. Mas o trabalhador ainda luta pelo mesmo reconhecimento, por ser lembrado também.

“Eu trabalhava com máquina. Preparava fio pra tecelagem. Eu trabalhava com duas máquinas que iam embora. E depois da minha máquina saiam os cones, os fios do meu fio. Depois levavam pra tecelagem. Da tecelagem continuava a outra luta”.

Dona Maria entende o que é lutar. Uma guerreira centenária que vivenciou parte da história dos trabalhadores brasileiros. Maria Monteiro entrou para a diretoria do Sindicato por volta de 1957. Nesse período, o Brasil vivia a redemocratização com o fim da ditadura fascista do Estado Novo de Getúlio Vargas. Havia mais espaço de atuação do movimento operário no regime democrático. “A diretoria que entrou junto comigo era a melhor que tinha. Porque antes era mais... O sindicato mais era do patrão do que do operário. Depois que entrou a minha turma... Aí fiquemos só pelos operários. Aí já melhorou bastante. Aí melhorou pra tudo. Foi uma luta mesmo”. Graças ao sindicato, como lembra a dona Maria, os patrões passaram a pagar também a hora em que a máquina permanecia parada por conta de avarias. Parece um detalhe. Mas é nele que mora a História.

Enquanto muitos livros registram datas, presidentes e guerras, dona Maria lembra do momento em que o tempo parado da máquina finalmente passou a valer alguma coisa. Talvez seja essa a verdadeira medida das conquistas trabalhistas.

Maria Monteiro recorda-se, ainda, de Pereira Inácio, proprietário da Fábrica de Tecidos Votorantim. A atitude, aparentemente gentil, desse industrial ao cumprimentar e conversar com os trabalhadores durante o almoço deles, ofusca parte importante do tratamento dado aos operários: eles almoçavam à sombra de eucaliptos porque não existia um refeitório para tanto.

Em janeiro de 1959 foi emitido o Decreto nº 45.106-A eleva o piso salarial para Cr$ 6.000,00 (antes o salário mínimo era de Cr$ 3.800,00, de acordo com o Decreto 39604 de 1956). Em outubro de 1960 houve novo reajuste, estabelecido pelo Decreto nº 49.119-A, que elevou o salário mínimo para Cr$ 9.600,00. Obviamente, houve muita resistência para a implantação desses reajustes e Maria Monteiro Zamboni acompanhou essa trajetória, reunindo-se com sindicalistas na então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro.

Costumo dizer que para um país que alcançou a sua Independência por meio de um grito – a proclamação de independência de Portugal feita pelo príncipe regente Dom Pedro em 1822 é chamada de “Grito da Independência” – coube ao povo a triste sina de ter que garantir seus direitos na base do “grito”, da luta. E assim foi.

No final da conversa, olhei novamente para ela. A entrevista começou com uma senhora de cento e um anos dizendo que a vista falhava. Terminou com uma mulher que ainda caminhava pelos corredores da antiga fábrica. A fábrica já não existe como existia. Os bondes desapareceram. As máquinas silenciaram. Muitos daqueles operários partiram. Mas dona Maria continua ali. Como quem segura, quase sozinha, a ponta de um fio. O mesmo fio que um dia preparava para a tecelagem. Agora, porém, ela fia outra matéria. Não algodão. Fia memória. E talvez seja exatamente isso que fazem os velhos quando contam suas histórias. Tecem, uma última vez, o tecido da cidade.

 

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

08.07.2026

domingo, 26 de abril de 2020

O fantasma do autoritarismo


                


            Não é novidade que o presidente Bolsonaro obteve votos de muitos que se simpatizam por governos ditatoriais e autoritários. Por diversas oportunidades, Bolsonaro elogiou figuras dos tempos de repressão dos governos militares, como Brilhante Ustra e generais que ocuparam cargos de presidentes de república. Enquanto ainda era deputado, Bolsonaro, por suas declarações, angariava a simpatia de grupos notoriamente neonazistas.
            Em 9 de abril de 2011, por exemplo, o grupo denominado “White Pride World Wide”[1] organizou um Ato de apoio a Jair Bolsonaro no vão livre do MASP, em São Paulo. Um ano depois, a revista Carta Capital noticiava o novo despertar do neonazismo no Brasil sob uma pretensa liderança canalizada na esperança de assunção ao poder por Bolsonaro.[2]
            Em 2015, durante a votação do impeachment da presidente Dilma Rousself, o então deputado dedicou o seu voto “sim” ao que ele chamou de “heróis de 1964” e ao Brilhante Ustra, acusado de ser um dos principais torturadores do regime militar.
            É de se esperar, portanto, que haja uma expectativa dos fascistas pela centralização do poder nas mãos do seu “líder”. Por isso o assunto tende a ser recorrente. A todo o momento, vez ou outra, “a cadela no cio do fascismo” tenderá a mostrar a sua tara por um governo ditatorial.
            A contradição, no entanto, da narrativa é escandalosa. A começar que o mesmo grupo que pede uma “intervenção militar” (uma ilusão criada por má interpretação do texto Constitucional) é o primeiro a gritar contra os regimes “comunistas” por serem estes uma ditadura. A lógica, ou melhor, a falta de lógica é esta: instale-se uma ditadura para combater a ditadura!
            Outra contradição é que quando manifestações que pedem por um governo militar – nos moldes daquele repressivo de 1964 a 1985 – são dissolvidas por tropas de choque, os manifestantes reclamam da “falta de liberdade”.
            No último final de semana, novas ondas de atos contra o isolamento social (por conta da pandemia de coronavírus) aproveitavam o mote para pedir o fechamento do Congresso e do STF e a instalação de um governo militar com Bolsonaro como presidente. Contra o isolamento, os manifestantes dizem que têm direito a ir e vir, “garantido pela Constituição”. No entanto, o fechamento de dois dos três Poderes é golpe e, por isso, totalmente contrário ao texto constitucional.
            Aliás, usando do seu “direito constitucional” de liberdade de expressão, manifestantes carregavam cartazes chamando a Constituição de 1988 de “Carta Magna Comunista”. Aliás, comunista é termo genérico para tudo. Até o vírus (Covid-19) já foi chamado de comunista. Afinal, os primeiros casos surgiram na China, então...
            O problema é que esse enfrentamento à democracia em nada ajuda o país. Nem hoje, enquanto vivemos o drama de uma pandemia, nem ontem e nem amanhã. Esse ódio exacerbado pelo outro, cuja histeria desenfreada leva ao desejo insaciável pelo autoritarismo deve ser encarado como doença que avança sem controle. Não se pode conceber que alguém, em sã consciência, opte deliberadamente por fortalecer um regime governamental que lhe rouba a liberdade. Não é da natureza humana o desejo pela prisão, seja ela material ou psicológica.
            Em pouco mais de um ano de governo, já tivemos diversas ameaças à liberdade. Em outubro de 2019, Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, se pronunciou a favor da reedição de uma espécie de AI-5 para combater a “esquerda”. Para quem não sabe, o AI-5 foi o Ato Institucional editado durante o regime militar e que recrudesceu a ditadura ao suspender todos os direitos civis e individuais dos cidadãos, incluindo o pedido de habeas-corpus.
            No último domingo, dia 19 de abril, uma manifestação em Brasília pedia novamente a reedição do AI-5. Manifestação essa saudada pelo presidente. No começo da semana, o presidente recuou e se disse defensor da democracia.[3] Mesmo assim, há movimentação de forças políticas solicitando abertura de inquérito para apurar responsabilidades de políticos envolvidos nessas manifestações.[4] E o fantasma do fascismo ainda nos ronda.


Carlos Carvalho Cavalheiro
21.04.2020
           


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2011/04/06/neonazistas-ajudam-a-convocar-ato-civico-pro-bolsonaro-em-sao-paulo.htm
[2] https://www.cartacapital.com.br/tecnologia/a-onda-bolsonaro-e-o-despertar-do-neonazismo/?__cf_chl_jschl_tk__=814d3ad717dd59cc58dd2351ab9d8959d63c3760-1587514337-0-ARCIef2IRfd1D-vDRzVS2_uo1R7d5WA-GYphVdFAea2ftOKtliqgS0sYdzZFwQRJOIK5QEDnuQLLnCe1etVzpN73X3Sly2r57Ka-_N5rjXlmg6qPc3FUdoDKACMlzx9yNcVW2MmM4IVHsAJxIa1rkMUOsIi6efEygw7SEYy19nrCsvkhdiG_NmKOM5E76xLvQitaUDRB9sLSxosEvWNc60MoZT7UnxKZSLWPuf3CjGpHUrmg1OqE1soBCX5f2OgcJqZ4PaP3PAylvCH7Maqp9WCnXQwlIVCm1KhFypglFchPe2gQFbZx1JFyzUd4VgEya6P42u698y0lM8qJt3-USX4
[3] https://br.blastingnews.com/politica/2020/04/video/apos-participar-de-manifestacao-pedindo-ai-5-bolsonaro-recua-sobre-congresso-e-stf-005351001.html
[4] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/20/interna_politica,846489/aras-pede-a-stf-inquerito-sobre-atos-que-defenderam-novo-ai-5.shtml

sábado, 18 de abril de 2020

Coronavírus: o que nos espera?


             Vivemos num mundo repleto de informações. Todo tipo de documento, pensamento, de dados, estatísticas, vídeos, enfim, toda a forma de informação nunca teve o acesso tão facilitado como nos dias atuais.
               Não há necessidade de buscar a informação. Ela chega até você, quer queira ou não. Os meios de comunicação da atualidade facilitaram essa disseminação que tornou-se praticamente impossível controlar essa ação. Daí o sucesso das chamadas fake News. Sem verificar a procedência da informação, as pessoas repassam para outras numa velocidade estonteante e, quando se percebe, aquele texto correu o globo todo.
               Acesso a dados não significa qualidade de informação e muito menos conhecimento. Pode se tratar, por exemplo, de um boato, de notícia falsa, de dados manipulados, de meias verdades. Pressupõe que tais informações se convertam em conhecimento na medida em que sejam processadas de tal forma que relacionadas a outros dados e a conhecimentos prévios possam criar um entendimento qualitativo (e, talvez, quantitativo) sobre o assunto abordado.
               Qualquer ser humano com algum tempo de vivência tem alguma informação sobre o que é um vírus. Também, esse mesmo ser humano é capaz de entender como se processa o contágio desse tipo de organismo para conosco. Porém, quando se trata de algo novo, ou seja, de um vírus que sofreu mutação ou que era desconhecido dos cientistas, então é preciso redobrar a atenção para aquilo que os especialistas no assunto estão adquirindo de informação nova e de conhecimento.
               Aparentemente, uma questão responsável pela demissão do Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta foi a do rigor com que a sua gestão indicava para a necessidade do isolamento social e da mudança de hábitos (como o uso de máscaras e o lavar constante das mãos) para evitar o colapso do sistema de saúde brasileiro.
               Muito antes dessa orientação do isolamento, empresários como Luciano Hang, proprietário da Havan, divulgava vídeo tentando demonstrar que tal atitude além de desnecessária iria provocar um colapso na economia. Carreatas ocorreram pedindo o fim do isolamento. É curioso o fato de que os modelos de carros que participaram dessas carreatas indicam que seus proprietários não terão que utilizar o transporte público, geralmente incômodo e lotado, propício para a difusão da contaminação do vírus, caso o isolamento seja flexibilizado.
               Enfim, os tempos em que vivemos são de difícil entendimento. Porém, não deve ser difícil, mesmo para quem seja desprovido da melhor inteligência, entender algumas coisas básicas. E nem precisa ser entendido em economia ou mesmo em infectologia ou profilaxia para compreender o que nos espera.
               As maiores economias do mundo se ressentem da necessidade de impor o isolamento social, mas não abrem mão dela. Mesmo o reticente Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, já admitiu a necessidade do isolamento social até, pelo menos, o dia 30 de abril.[1]
               Com uma eleição para vencer, Trump não quer deixar a imagem de um país fracassado economicamente. Por isso, vem pedindo a gradual flexibilização das medidas de isolamento social. Por outro lado, e pelos mesmos motivos, não pretende ser acusado de negligência administrativa se o número de mortos e contaminados acelerar assustadoramente depois da imposição de regras mais flexíveis de isolamento social. Está, então, como se diz, na corda bamba.
               Por outro lado, estudo revela que durante o surto de gripe espanhola no início do século XX, as cidades estadunidenses que usaram como tática o isolamento social tiveram recuperação econômica mais rápida.[2] Isso parece óbvio, pois se significativa parte da população adoecer, não teremos nem produtores e nem consumidores. Com isso, a economia ficará estagnada mesmo e será um colapso sem precedentes.
               Sabe-se, por exemplo, que escolas no Brasil foram fechadas durante a Gripe Espanhola para se converterem em hospitais de campanha. De fato, nunca estamos preparados para uma epidemia tão devastadora. Porém, sendo o caso de uma pandemia, podemos, ao menos, aprender com os outros países.
               O sucesso relativo do fim do surto na China, início da epidemia do novo coronavírus (Covid-19) deveu-se a ações rígidas, como o isolamento. Paradoxalmente, o sucesso do isolamento social causa uma sensação de inutilidade do mesmo. Por esse motivo, no Brasil, alguns desinformados têm filmado hospitais de campanha montados – esperando o pico da crise – dizendo que como estão vazios significa que não existe a doença ou que ela não é tão grave assim.
               E desse modo, muita gente embarca nessa história de que se trata de uma “gripezinha” ou “resfriadinho”, ou, ainda, que é o caso de uma conspiração de forças obscuras que querem destruir a economia de todos os países!
               Ainda não chegamos ao pico da crise do coronavírus. Por esse motivo, temerosa é a demissão do ministro Mandetta, infelizmente comemorada por quem é a favor do fim do isolamento social e, mais infeliz ainda, por outros que viram nisso uma oportunidade de “vingança” por ele ter votada, enquanto deputado em 2015, pelo impeachment de Dilma Rousself. No fim, alguns “bolsonaristas” e alguns “petistas” concordaram com alguma coisa.
               O que está em jogo agora não são picuinhas pessoais. Nem é o caso de duvidar da competência do atual ministro Nelson Teich. Acontece que, fazendo um paralelo com futebol, nosso velho conhecido, não se mexe em time e em treinador durante o campeonato. A não ser que estejam muito ruins. E não parece ser esse o caso. Ao contrário, as diretrizes da gestão de Mandetta pareciam fazer sentido.
               O novo ministro vai demorar um pouco até formar uma equipe de confiança, tomar conhecimento do funcionamento da máquina, conhecer os meandros políticos e de saúde envolvidos nisso, bem como planejar toda uma estratégia de combate ao vírus. Isso leva tempo e é o que menos temos agora. Por isso, a demissão de Mandetta foi, no mínimo, uma imprudência neste momento.
               A boa notícia é que os estados, em sua maioria, ainda estão seguindo as orientações de quem entende do assunto: médicos, cientistas, OMS... E seguimos, ainda que ansiosos, o isolamento social tão necessário neste momento. E, também, fazendo nossa parte: evitando aglomerações, contatos desnecessários com outras pessoas, mantendo distância de segurança, lavando as mãos e usando máscaras, especialmente em locais públicos.
               O vírus é o vilão da vez. E nas histórias de mocinhos e bandidos, quem não usa a máscara não é o Lone Ranger (Zorro). É o Tonto.

18.04.2020


sábado, 21 de julho de 2018

Livro: "Entre o sereno e os teares"

O tambu repicava célere no momento em que o pardo Trindade percebeu a presença de Benedita que requebrava os quadris, segurando uma ponta da saia comprida, dançando o batuque. Passava da meia noite e as labaredas da fogueira já não mais tentavam ofender a abóboda celestial. Porém, nos pés dos dançadores, o ânimo continuava o mesmo, alimentado pelo álcool e pelo prazer do exercício do corpo em liberdade.
Naqueles idos do final do século XIX, em Sorocaba, o batuque tinha de ser realizado nos arrabaldes, pois qualquer reclamação poderia servir de pretexto para a repressão policial. Dizer sobre arrabalde naquela época não tem a mesma conotação de hoje. O que se considerava como “afastado do centro” é atualmente a região central da cidade. Para os lados da Praça Frei Baraúna, por exemplo, era comum a ocorrência do batuque. As residências de famílias estavam um pouco mais distantes, permitindo esses poucos espaços de liberdade de expressão para os negros que reverenciavam os seus ancestrais com a música e a dança.(...)

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Edição Costelas Felinas - livros e revistas artesanais.



Primeiro romance de Carlos Carvalho Cavalheiro, conta a história de um malandro e de uma operária vivendo na cidade de Sorocaba nos anos 1920 a 1930.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Documentário sobre a Caminhada da Penha será exibido em TVs de Sorocaba e Votorantim





O documentário "Caminhada da Penha", dirigido e produzido por Carlos Carvalho Cavalheiro e Roberto Ramos fará sua estréia nesta sexta-feira, dia 30, às 14 horas, na TV Votorantim e no sábado, ao meio dia, na TV Com Sorocaba.
Retratando a tradicional caminhada realizada pela Serra de São Francisco, em Votorantim, rumo à Capela da Penha, incrustada na serra, num percurso de 20 km, o documentário traz depoimentos de religiosos, caminhantes, de personalidades que de uma forma ou outra sustentam essa manifestação de fé, espiritualidade e devoção.
Dos depoimentos colhidos para o documentário, observa-se que o caminho é percorrido por pessoas com objetivos variados, desde o cumprimento de promessas até o desafio de superação física em realizar uma caminhada de percurso médio.
A beleza da paisagem e o envolvimento das pessoas na realização do evento também estão presentes no vídeo.
As filmagens foram realizadas por Roberto Ramos e Carlos Carvalho Cavalheiro em 2017, durante a realização da 19ª Caminhada da Capela da Penha.
Desde há alguns anos a caminhada é realizada no domingo seguinte ao da Páscoa. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Desejo de ser argentino

Na segunda-feira, dia 18 de dezembro, as ruas da Argentina foram tomadas pela população que em massa protestava contra a proposta de Reforma da Previdência apresentada pelo governo do presidente Maurício Macri. Aos gritos de “aqui não é o Brasil”, os manifestantes tiveram confrontos violentos com a polícia que procurava reprimir os protestos.
Diferentemente no Brasil, a população estava mais preocupada com as compras de Natal e, como Deus é brasileiro e os nossos políticos sobrevivem das eleições, o clima desfavorável à votação da Reforma fez com que essa fosse adiada para Fevereiro. Isso mesmo, na época de Carnaval. Afinal, a nossa fé em Momo é igualada à crença que temos no sobrenatural e na vã esperança de que um ser qualquer – anjo, extraterreste, Super-Homem ou alguém com patente militar – possa nos salvar. No mais, continuamos na passividade e na inércia enquanto nos roubam as poucas conquistas históricas que angariamos.
Pela primeira vez superamos o nosso preconceito e com vergonha na cara sentimos o desejo de sermos argentinos, de sairmos à rua para algo que de fato valha à pena e não por um engodo que nos engula ao final.
A página oficial do Governo Federal Brasileiro sobre a Reforma da Previdência está repleta de informações mal explicadas. Como uma espécie de mantra – no sentido mesmo de, por meio da repetição, nos levar a “outro estado” de consciência (talvez, alterado) – em diversos links do portal aparece a sentença: “A reforma da Previdência não tira direitos de quem mais precisa, pelo contrário, ela garante um sistema mais justo para todos os brasileiros. As regras atuais, com o pagamento de altas aposentadorias para políticos e para o alto funcionalismo público, criam uma classe de privilegiados que se aposentam muito cedo e com valores que deixam o sistema insustentável. Para acabar com essa desigualdade, a reforma da Previdência vai promover um sistema mais equilibrado e sustentável”. (http://www.brasil.gov.br/reformadaprevidencia/textos/reforma-da-previdencia-entenda-o-deficit).
De acordo com esse portal, ”Há muita gente se aposentando mais cedo no Brasil, com idade e condições de trabalhar. Algumas, em especial nas altas classes do serviço público, aposentam-se ganhando mais de R$ 30 mil. Se continuarmos assim, faltará dinheiro para pagar os benefícios de quem trabalha atualmente e quer receber aposentadoria no futuro” (http://www.brasil.gov.br/reformadaprevidencia/textos/reforma-da-previdencia-entenda-o-deficit).
Quando pensamos em salários de R$ 30 mil nos vem à mente os ocupantes de cargos políticos, altos funcionários do Poder Judiciário e Militares de alta patente. O jornal “O Globo” em novembro de 2016 noticiou que os militares respondiam por quase 50% do rombo da Previdência da União. De acordo com o noticiário, “Em 2015, déficit da categoria era de R$ 32,5 bilhões, ou 45% do rombo da União” (https://oglobo.globo.com/economia/militares-respondem-por-quase-metade-do-deficit-da-previdencia-20470974). Porém, ao contrário do que se deveria esperar, diante de tal situação, ainda em novembro de 2016, o ministro da Defesa, Raul Jungmann disse que os militares devem ficar fora do projeto de Reforma da Previdência, pois, afinal, “Não é justo tratar igualmente quem é desigual” (https://www.gazetaonline.com.br/noticias/politica/2016/11/militares-ficarao-fora-de-projeto-da-reforma-da-previdencia-diz-ministro-1013998261.html).
Aí começa a aparecer o engodo. O mote da Reforma, segundo o Governo Federal, não é acabar com os privilégios para que se promova a igualdade? Porém, o próprio Ministro do governo admite que “há os mais iguais do que os outros”? Como é que fica?
A coisa é simples e somente um otário não percebe (que me perdoem a expressão chula, mas o momento a exige). Se o problema do rombo da Previdência é causado pelas altas aposentadorias que chegam a R$ 30 mil, porque não limitar tais aposentadorias? Não estaria resolvido o problema? No entanto, o governo federal, além de não tocar nos privilégios dos mais ricos, ainda apresenta para os mais pobres as novas regras de aposentadoria, com o seguinte texto: “Pelo novo texto proposto para a reforma da Previdência, fica estabelecida uma nova idade mínima de aposentadoria: 65 anos para os homens e 62 anos para as mulheres”. (http://www.brasil.gov.br/reformadaprevidencia/textos/reforma-da-previdencia-idade-minima).
Se o problema são as altas aposentadorias – que, de fato, representam uma fatia grande do “rombo” (se é que ele existe), por que se faz necessário mexer com os direitos e a aposentadoria daqueles que ganham pouco? Diz o portal do governo federal na internet que “A reforma da Previdência protege quem mais precisa e garante uma aposentadoria mais justa para todos os brasileiros. As regras atuais, com o pagamento de altas aposentadorias para políticos e para o alto funcionalismo público, criam uma classe de privilegiados que se aposentam cedo e com valores que deixam as contas públicas no vermelho. Para acabar com essa desigualdade, a reforma da Previdência vai promover um sistema mais equilibrado e sustentável” (http://www.brasil.gov.br/reformadaprevidencia/textos/cinco-fatos-sobre-a-reforma-da-previdencia).
No entanto, fica estampado na cara que a reforma atingirá apenas e tão somente o trabalhador pobre, aquele que não aproveita dos salgados e doces, dos comes e bebes, mas está acostumado a pagar a conta da festa dos mais privilegiados. Nesse momento, apossa-se o desejo de sermos como os argentinos: aguerridos defensores de seus direitos historicamente conquistados.

Carlos Carvalho Cavalheiro – 19.12.2017