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| Carlos Carvalho Cavalheiro e Maria Monteiro Zamboni. Foto: Patrícia Campos |
A proximidade física com os anciões é uma oportunidade para a reflexão
do caminhar por essa estrada aventureira que é a vida. Afinal, ao alcançar a
senectude, a pessoa colecionou durante anos diferentes e diversas experiências,
agradáveis ou não. E pela oportunidade de viver múltiplas emoções, essa alma
vai se forjando como o aço mergulhado na brasa: é preciso amolecer um pouco
para retornar mais resistente.
Tive a
oportunidade de conhecer a dona Maria Monteiro Zamboni, mulher que foi operária
têxtil e sindicalista, e que já anota em seu calendário a marca dos 101 anos
(talvez, 102, como explicarei melhor adiante). A ocasião para que eu pudesse conhece-la
foi proporcionada pela professora Patrícia Campos. Maria Monteiro é avó paterna
do esposo de Patrícia.
Quando perguntei a dona Maria Monteiro Zamboni sobre
sua vida, ela começou falando da testa. Havia batido a cabeça na ponta de um
móvel. Sorriu. Depois reclamou dos olhos. Em seguida, do ouvido. Era como se o
corpo, aos cento e um anos, apresentasse um relatório das peças que o tempo
havia desgastado. Mais do que isso, do desgaste de quem trabalhou por anos
dentro de uma fábrica sob o regime da exploração do trabalho.
Mas bastou começarmos a falar da fábrica para que
algo extraordinário acontecesse. A memória voltou a enxergar. Os ouvidos
voltaram a escutar. O corpo pareceu esquecer a idade. De repente, já não
estávamos mais em 2026. Era madrugada. Cinco
horas. O bonde dos homens chegava primeiro. Poucos minutos depois, vinha o das
mulheres. Ninguém precisava explicar aquela ordem. Ela fazia parte da
engrenagem da cidade, como os trilhos, as sirenes e as chaminés.
“Eu nasci em São Roque”, revela dona Maria. “Eu nasci...
No meu registro está em 1925, né? É, 25. Mas eu... Eu acho que eu... Fico
assim, pela minha idade... Eu já estou entrando no 102. Agora em setembro. Mas
já estou com 101”. História comum a muitas outras pessoas, o registro
oficial nem sempre acompanha a data real do nascimento. Sendo uma obrigação que
gerava custos, o registro era um empecilho para as famílias menos abastadas,
sobretudo se considerarmos que as despesas extras já contabilizadas a partir do
surgimento de mais um membro da família. “Eu ouvia o meu pai falar... Que na época
que eu nasci... Ele esteve doente, então ele registrou eu... Um pouco mais
atrasada. Mas pelo modo que eles falaram... Eu nasci em setembro de 24”.
“De São Roque... Eu fui pra... Morei um pouco em
Mairinque, com meu pai... Depois de Mairinque, que meu pai trabalhou um pouco
lá na fábrica... Aí mudei, foi pra Ipanema. Do Ipanema... Fiquei uns três anos
lá... Aí tivemos aqui em Votorantim. E aqui em Votorantim... Eu vim aqui quando
eu tinha 15 anos. Eu vim nessa cidade aqui. Daí eu entrei na fábrica...”.
Dona Maria iniciou seu trabalho como operária em
1940, já sob um regime de trabalho menos severo do que o vivido pelos seus
antecessores. A Constituição de 1934, no período da Era Vargas, incorporou no
seu artigo 121, a alínea “d”: prohibição de trabalho a menores de 14 annos; de
trabalho nocturno a menores de 16; e em industrias insalubres, a menores de 18
annos e a mulheres.
Alguns anos antes, crianças de 8 ou 9 anos
trabalhavam em fábricas com jornada semelhante à dos adultos. Na época de dona
Maria, a exploração era menor, mas não inexistente. Talvez, ocorresse de
maneira mais sutil.
Ao abrir o portão, milhares de trabalhadores
atravessavam juntos aquele rito cotidiano.
Cada qual seguia para sua seção. Tecelagem, Estamparia, Fiação... Era
uma cidade inteira entrando para trabalhar. De acordo com a memória de dona
Maria Monteiro Zamboni, havia cerca de 8 mil trabalhadores!
Dona Maria ainda sabe exatamente onde ficavam as
máquinas. Lembra-se dos cones de fios. Das horas marcadas pelo relógio da
produção. Das peças que quebravam e faziam diminuir o salário. “Nós
tinha... Meia hora de almoço só... A cada uma... Tinha duas máquinas. E ali nós
cuidávamos do fio. Aquele fio que nos aprontava na máquina... Ia pra outra
sessão... De lá ia pra terceira sessão. Mas era corrido. E a máquina tinha...
Era por relógio. Quanto mais a máquina virava, fazia ponto. E se a máquina não
virava, não fazia ponto. E nós ganhávamos por ponto. E quando as máquinas
paravam pra um concerto de uma peça... Nós perdíamos tempo. Mas foi uma luta”.
Luta. Esse é um termo constante na narrativa de dona
Maria Monteiro Zamboni. E deveras significativo. A vida, para quem trabalhou
dentro de fábricas, sempre foi uma luta. Luta pela existência, luta pelo
reconhecimento, luta pela valorização e, ao fim, a luta pelo direito à memória.
As ruas e praças estão repletas de nomes de industriais capitalistas. O
reconhecimento de que contribuíram, de alguma maneira, para a formação da
cidade está sedimentado em monumentos e homenagens. Mas o trabalhador ainda luta
pelo mesmo reconhecimento, por ser lembrado também.
“Eu trabalhava com máquina. Preparava fio pra
tecelagem. Eu trabalhava com duas máquinas que iam embora. E depois da minha
máquina saiam os cones, os fios do meu fio. Depois levavam pra tecelagem. Da
tecelagem continuava a outra luta”.
Dona Maria entende o que é lutar. Uma guerreira
centenária que vivenciou parte da história dos trabalhadores brasileiros. Maria
Monteiro entrou para a diretoria do Sindicato por volta de 1957. Nesse período,
o Brasil vivia a redemocratização com o fim da ditadura fascista do Estado Novo
de Getúlio Vargas. Havia mais espaço de atuação do movimento operário no regime
democrático. “A diretoria que entrou junto comigo era a melhor que tinha.
Porque antes era mais... O sindicato mais era do patrão do que do operário.
Depois que entrou a minha turma... Aí fiquemos só pelos operários. Aí já
melhorou bastante. Aí melhorou pra tudo. Foi uma luta mesmo”. Graças ao
sindicato, como lembra a dona Maria, os patrões passaram a pagar também a hora
em que a máquina permanecia parada por conta de avarias. Parece um detalhe. Mas
é nele que mora a História.
Enquanto muitos livros registram datas, presidentes
e guerras, dona Maria lembra do momento em que o tempo parado da máquina
finalmente passou a valer alguma coisa. Talvez seja essa a verdadeira medida
das conquistas trabalhistas.
Maria Monteiro recorda-se, ainda, de Pereira Inácio,
proprietário da Fábrica de Tecidos Votorantim. A atitude, aparentemente gentil,
desse industrial ao cumprimentar e conversar com os trabalhadores durante o
almoço deles, ofusca parte importante do tratamento dado aos operários: eles
almoçavam à sombra de eucaliptos porque não existia um refeitório para tanto.
Em janeiro de 1959 foi emitido o Decreto nº 45.106-A
eleva o piso salarial para Cr$ 6.000,00 (antes o salário mínimo era de Cr$
3.800,00, de acordo com o Decreto 39604 de 1956). Em outubro de 1960 houve novo
reajuste, estabelecido pelo Decreto nº 49.119-A, que elevou o salário mínimo
para Cr$ 9.600,00. Obviamente, houve muita resistência para a implantação
desses reajustes e Maria Monteiro Zamboni acompanhou essa trajetória,
reunindo-se com sindicalistas na então capital federal, a cidade do Rio de
Janeiro.
Costumo dizer que para um país que alcançou a sua
Independência por meio de um grito – a proclamação de independência de Portugal
feita pelo príncipe regente Dom Pedro em 1822 é chamada de “Grito da
Independência” – coube ao povo a triste sina de ter que garantir seus direitos
na base do “grito”, da luta. E assim foi.
No final da conversa, olhei novamente para ela. A
entrevista começou com uma senhora de cento e um anos dizendo que a vista
falhava. Terminou com uma mulher que ainda caminhava pelos corredores da antiga
fábrica. A fábrica já não existe como existia. Os bondes desapareceram. As
máquinas silenciaram. Muitos daqueles operários partiram. Mas dona Maria
continua ali. Como quem segura, quase sozinha, a ponta de um fio. O mesmo fio
que um dia preparava para a tecelagem. Agora, porém, ela fia outra matéria. Não
algodão. Fia memória. E talvez seja exatamente isso que fazem os velhos quando
contam suas histórias. Tecem, uma última vez, o tecido da cidade.
Carlos Carvalho Cavalheiro
08.07.2026

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