sábado, 10 de outubro de 2026

Neste segundo turno, os anarquistas devem votar?





Como anarquista, não acredito que as transformações sociais possam ocorrer por meio da eleição de um ou de outro candidato. A democracia que vivemos é filha das revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX. A estrutura montada pela burguesia não nos permite avançar em termos de uma organização social fundada na livre associação das pessoas.


Sei que o sistema político não se modifica com uma eleição. Ao contrário, ela reforça a vã esperança de que o próximo eleito seja melhor do que o anterior. A eleição nos afasta da ação direta e da mobilização social. Ensina-nos que precisamos de representantes que, imbuídos de um mandato, têm o poder de decisão sobre nossas vidas. Tudo isso aprendi com diversos anarquistas, como Malatesta, que diz:


“Para resolver o problema social em favor de todos, só há um meio: expulsar revolucionariamente os detentores da riqueza social; colocar tudo à disposição de todos e fazer com que todas as forças, todas as capacidades, todas as boas vontades existentes entre os homens ajam para assegurar as necessidades de todos.”


Não acredito, portanto, na democracia burguesa. Porém, é fato que, neste momento, estamos a decidir não somente quem será o próximo presidente, mas se teremos espaço para sobrevivermos — e continuarmos a nossa luta, sempre — ou se viveremos na barbárie, na ditadura de um fascismo fundamentalista e numa teocracia aberrante.


Se os movimentos políticos liberais ou mesmo de “esquerda” enfraquecem os espaços de luta, o fascismo os extingue. Deixa-nos sem espaço. Sobretudo quando esse fascismo está alicerçado num entreguismo aos EUA governados por Trump. Se a militância se arrefece quando um governo liberal ou mesmo de “esquerda” está no poder, sob o fascismo essa militância pode simplesmente deixar de existir, pela falta de condições para a ação democrática.


No primeiro turno, os anarquistas votaram nulo. Nem todo voto nulo ou toda abstenção é resultado de uma consciência anarquista, mas o número chega a 33 milhões nesta eleição. Esse número é mais do que suficiente para a derrota do fascismo.


Penso que devemos agir com estratégia. Temos, hoje, a possibilidade de ajudar na derrota, nas urnas, desse fascismo entreguista e fundamentalista. Como sempre, cada anarquista age de acordo com sua consciência. Mas peço a reflexão neste momento: vale a pena fortalecer o fascismo com as nossas abstenções?


Saudações,


Carlos Carvalho Cavalheiro