sábado, 12 de agosto de 2017

As Frestas que incomodam o pastor


            O protocolo de um requerimento do vereador pastor Luís Santos no último dia 10, solicitando a imediata remoção de pintura realizada pela premiada artista Panmela Castro, tem causado celeuma para fora dos muros deste feudo. A obra intitulada "Femme Maison" faz parte da 2ª edição do Frestas – Trienal de Artes do Sesc Sorocaba e foi pintada no muro da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade.
                Aparentemente, entre o rosto de duas mulheres – gêmeas siamesas – aparece uma vagina (genitália feminina, como se referiu o pastor vereador).
                Não entendi a repulsa do edil sobre a obra. Afinal, se de fato se tratar de uma vulva, a mesma está desenhada de maneira estilizada, de forma que não se trata de fato de uma vagina, mas do significado que a essa imagem dá aquele que a vê. Sendo assim, seria o caso de se pensar em destruir o obelisco da Praça Frei Baraúna, pois obeliscos sempre foram tidos como símbolos fálicos. E em se tratando de homenagem a homens que lutaram na 2ª Guerra Mundial, faria todo o sentido pensar que de fato seja um monumento que lembra a masculinidade peniana.
                Por outro lado, qual o mal estar da nudez? O famoso tradutor da Bíblia para o português, João Ferreira de Almeida, converte para o nosso vernáculo os versículos 27 e 28 do capítulo 1 do livro de Gênesis, sobre a criação dos seres humanos: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra...”.
                Ora, se macho e fêmea Deus nos criou, foi Dele a idéia de fazer o pênis e a vagina. Qual o motivo de vergonha daquilo que Deus criou? A vergonha da nudez vem pelo pecado (Gn 3:7) e não por sua existência em si.
                Qual fresta incomoda tanto o vereador? Aquela pela qual todos nós nascemos? A fresta que nos traz à vida? A fresta que representa a mulher? Ou a fresta que abre a mente e nos faz refletir sobre a nossa própria existência?
                Aparentemente, o vereador é contrário a todas as “Frestas”.


Carlos Carvalho Cavalheiro
12.08.2017



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Preto Pio lutou pela liberdade

Poucos sabem, mas em fins de outubro de 1887 ocorreu uma fuga de escravos na cidade de Capivari / SP. O líder dessa fuga era o escravo conhecido por Preto Pio. Centenas de escravos fugiram das fazendas dessa cidade e também de Porto Feliz e Sorocaba. Foram à pé até a Serra do Cubatão, onde, ocorreu um desentendimento entre Preto Pio e um soldado do exército, resultando na morte de ambos.
A luta do Preto Pio acabou por resultar na recusa do Exército brasileiro em continuar dando caça aos escravos fugitivos e, consequentemente, impulsionou a assinatura da Lei Áurea (13 de maio de 1888) seis meses depois desse episódio.
Preto Pio é o Spartacus e é o Zumbi do Médio Tietê!

Viva a memória do Preto Pio!
"Senhora!
"Os oficiais, membros do Clube Militar, pedem a Vossa Alteza Imperial vénia para dirigir ao Governo Imperial um pedido, que é antes uma súplica... ". . .Esperam que o Governo Imperial não consinta que nos destacamentos do Exército, que seguem para o interior, com o fim, sem dúvida, de manter a ordem, tranqüilizar a população e garantir a inviolabilidade das famílias, os soldados sejam encarregados da captura de pobres negros, que fogem à escravidão, ou porque vivam já cansados de sofrer os horrores, ou porque um raio de luz da liberdade lhes tenha aquecido o coração e iluminado a alma.Senhora! A liberdade é o maior bem que possuímos sobre a terra; uma vez violado o direito que tem a personalidade de agir, o homem, para reconquistá-lo, é capaz de tudo: de um momento, um covarde torna-se um herói; ele, que dantes era a inércia, se multiplica e se subdivide, e, ainda mesmo esmagado pelo peso da dor e das perseguições, ainda mesmo reduzido a morrer, de suas cinzas renasce sempre mais bela e mais pura a liberdade... Impossível, pois, Senhora, esmagar a alma humana que quer ser livre. Por isso, os membros do Clube Militar, em nome dos mais santos princípios da humanidade, em nome da solidariedade humana, em nome da civilização, em nome da caridade cristã, em nome das dores de Sua Majestade, o Imperador, vosso augusto Pai, cujos sentimentos julgam interpretar e sobre cuja ausência choram lágrimas de saudades, em nome do vosso futuro e do futuro de vosso filho, esperam que o Governo Imperial não consinta que os oficiais e as praças do Exército sejam desviados da sua nobre missão. Eles não desejam o esmagamento do preto pelo branco e não consentiriam também que o preto, embrutecido pelos horrores da escravidão, conseguisse garantir a sua liberdade esmagando o branco. O Exército havia de manter a ordem. Mas, diante de homens que fogem calmos, sem ruído, mas traquilamente, evitando, tanto a escravidão como a luta, e dando, ao atravessar cidades, enormes exemplos de moralidade, cujo esquecimento tem feito muitas vezes a desonra do Exército mais civilizado, o Exército Brasileiro espera que o Governo Imperial conceder-lhe-á o que respeitosamente pede em nome da humanidade e da honra da própria bandeira que defende." 
26 de outubro de 1887

História, Geografia e Semana das Monções

Estamos dentro do período em que se comemora o aniversário da cidade: a Semana das Monções. Inevitável pensar em História e em Geografia nesse momento. Afinal, a saga monçoeira escolheu a cidade de Porto Feliz pelo favorecimento dos aspectos geográficos, como a existência de um “porto” natural e pela navegabilidade do rio Tietê a partir desse local. Além disso, as viagens fluviais até o interior do Brasil, sobretudo para Cuiabá, em busca do ouro é um episódio marcante da História local e regional que reflete na própria História do Brasil como um todo.
            A memória que se produz desse evento histórico é importante elemento na constituição da identidade de Porto Feliz. É um amálgama que une os diversos grupos sociais e étnicos dentro de um aspecto comum. Daí decorre a importância da História e da Geografia que vão alimentar e emprestar argumentos para a fundamentação dessa memória.
            O historiador francês Pierre Nora conceitua os “lugares de memória” como tudo aquilo que serve como transporte de uma reminiscência, desde que para isso haja vontade de transmissão dessa lembrança. É exatamente o que ocorre durante as comemorações da Semana das Monções. Não importa que seja o hasteamento da bandeira, o cantar do hino da cidade, o desfile cívico, a promoção de palestras e estudos ou a encenação teatral... Tudo isso se converte em lugar de memória porquanto existe uma intencionalidade, ou seja, um objetivo que é o de criar uma identidade portofelicense.
            Sendo, portanto, a História e a Geografia, como disciplinas – inclusive no âmbito escolar – importantes em qualquer contexto, mas, sobretudo numa cidade como Porto Feliz, parece ser discrepante o fato de que nessa mesma cidade, dentro do currículo da rede municipal, a jornada seja de apenas duas aulas por semana, quando em todas as outras realidades (como nas escolas estaduais), o número de aulas dessas matérias é superior a isso.
            A primeira justificativa que pode aparecer é a de que na rede estadual a carga horária é maior que a da rede municipal. Enquanto no Estado a carga é de 30 horas semanais, no município é de 25. Portanto, a cada dia da semana há no município uma aula a menos que no Estado.
            No entanto, ainda assim, pela regulamentação da Resolução SE nº 81 de 16 de dezembro de 2011, que estabelece as diretrizes para organização curricular nas escolas estaduais, quando se verifica o Anexo II da referida resolução, percebe-se que na distribuição curricular das disciplinas existe o respeito a uma porcentagem de cada uma na totalidade da formação do educando.
            Dividindo-se, portanto, as aulas de Língua Portuguesa e Matemática, por exemplo, que são 6 por semana cada, pelo número de aulas semanais, obtêm-se a porcentagem de 20% (30 aulas semanais divididas por 6). Ciências Naturais, História e Geografia deveriam representar 13,3 % e Arte, Educação Física e Língua Inglesa, 6,6%. Isso na rede estadual, com carga semanal de 30 aulas.
            Com a carga de 25 aulas, como ocorre na rede municipal, respeitando-se essa mesma proporcionalidade, as aulas de Língua Portuguesa e Matemática deveriam ser 5 por semana; Ciências Naturais, História e Geografia deveriam ter 3 aulas por semana e Arte, Educação Física e Língua Inglesa, 2 aulas por semana.
            Ocorre que, a despeito disso, as aulas de História e Geografia na rede municipal são apenas 2 por semana. Mesmo contra toda a lógica, mesmo com a importância que ambas as disciplinas têm na formação do educando, e, acima de tudo, pelo significado que ambas possuem na formação da identidade e da cidadania portofelicense. Quem souber a resposta que nos conte.


Carlos Carvalho Cavalheiro

10.10.2016

Eleições Municipais de 2016

Encerrou-se no domingo, dia 30 de outubro, o último episódio das eleições municipais deste ano. Como era de se esperar, pelo desgaste político dos últimos acontecimentos, a sigla do PT parece ter sido a que mais angariou perdas nestas eleições.
            De acordo com o site G1 (da Globo), o PT não conseguiu conquistar nenhuma das 7 prefeituras a que concorria em 2º turno. Por outro lado, encolheu pouco mais de 94% nas prefeituras de cidades grandes, com mais de 200 mil habitantes. Em 2012, o PT elegeu 17 prefeitos em cidades desse porte. Em 2016, apenas 1.
            O desempenho geral nas outras cidades também não foi dos melhores: de 638 municípios em 2012, o partido reduziu sua presença no Executivo para 254, uma redução de pouco mais de 60%.
            O PSol apresentou-se como alternativa de esquerda nestas eleições, mas não teve um desempenho esperado. Apesar de ter elegido 53 vereadores este ano (em 2012 foram 49), só conseguiu eleger 2 prefeitos em cidades pequenas: Janduís e Jaçanã, ambas no Rio Grande do Norte. Com isso, manteve o mesmo número de prefeitos eleitos em 2012. Dos 53 vereadores do PSol, foi eleita em Sorocaba a vereadora Fernanda Garcia, ampliando o número de mulheres em relação ao pleito anterior.
            Muitas manifestações nas redes sociais comemoraram, após a divulgação dos resultados do 2º turno, a “limpeza” do Brasil que se livrou do “comunismo”. Não faltaram desenhos do mapa brasileiro de “antes” – dividido nas cores vermelha e azul – e “depois”, todo de verde-amarelo com um ponto em vermelho.
            Também não faltaram manifestações com fedor de extrema-direita, e até quem se dispusesse a fazer o triste, submisso e feio papel de sair à ruas de São Paulo para apoiar a candidatura de Donald Trump para presidência dos Estados Unidos. Muitos dos entrevistados disseram que seu apoio se escora em convicções políticas como a da eleição, em 2018, de Jair Bolsonaro para presidente do Brasil!
            Do mesmo modo, aproveitando a onda fascista, movimentos escusos questionavam os protestos estudantis contra a PEC 241, que limita os gastos do setor público, congelando por 20 anos investimentos em diversos setores, atingindo com isso a Educação.
            De tudo, tiram-se algumas lições dessas eleições. Primeiro é que, a despeito da comemoração ostensiva de grupos de extrema-direita, o fato é que nenhum dos posicionamentos tradicionais da política encontra escora nos tempos atuais. Pensadores como Boaventura de Sousa Santos, Michel de Certeau e mesmo Frei Betto advertem há tempos sobre a crise dos paradigmas na atualidade.
            O que trazem esses pensadores desde o final da década de 1990 é que as instituições, tais como as conhecemos, já não cumprem mais o seu papel e é hora de se pensar em nova forma de organização das coisas. Direita e esquerda hoje convivem com o dilema do esvaziamento do discurso e da ideologia. Como no livro de George Orwell, “A Revolução dos Bichos”, cada vez fica mais difícil saber quem é gente e quem é porco.
            Esse descontentamento com as instituições pode ser avaliado pelo excessivo número de votos nulos, brancos e de abstenções nesta eleição. Os números chegam a 40% ou mais dos eleitores, somando-se todos os votos não contabilizados. Com isso, os candidatos que “ganharam” a eleição com 51% dos votos, por exemplo, na realidade tiveram votos de apenas pouco mais de 1/3 da população. Eis aí a crise pela qual passa a política.
            Outra lição: a reforma política já passou do tempo... São mais de 30 partidos que elegeram prefeitos no Brasil todo. Com isso, dentro dos moldes em que se projetou a nossa organização política, dificilmente se consegue estabelecer um diálogo entre as esferas da União. Como pode o governo estadual, por exemplo, dialogar com tantas siglas?
            De descrédito em descrédito, o fato é que algo precisa ser mudado. Não há espaço para a preguiça de se pensar em nova fórmula que permita a organização social e política. Urge que assim se processe. Antes que sobrevenha o caos.

Carlos Carvalho Cavalheiro
31.10.2016
           
           
Fontes:
http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2016/blog/eleicao-2016-em-numeros/post/psdb-elege-14-prefeituras-no-2-turno-e-pt-nenhuma.html

http://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/10/1819571-psol-cresce-nas-eleicoes-e-tenta-ser-alternativa-da-esquerda-ao-pt.shtml

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A mais firme, incansável e enérgica oposição


            Logo após o seu afastamento definitivo da Presidência da República, Dilma Rousseff proferiu um discurso em que prometia ao “governo golpista a mais firme, incansável e enérgica oposição”. O recado parecia ter sido endereçado diretamente aos militantes de movimentos sociais, pois as medidas apontadas pelo atual governo atingem duramente as fatias menos favorecidas da população.
            Reformas na Previdência – embora apresentadas inicialmente pelo governo Dilma em fevereiro deste ano – com sugestões de equiparações de regime entre homens e mulheres, entre profissões distintas, com idade a partir de 65 anos, alcançam a maior parte da população trabalhadora deste país. Não fosse somente isso, ecos de sugestões como extinção do SUS (Sistema Único de Saúde), congelamento de salários, extinção de 13º, fim de direitos sociais e trabalhistas, cortes em programas de incentivo à educação são fantasmas que assustam e tiram o sono de muita gente.
            O próprio Michel Temer assumiu que as medidas que seu governo iria tomar seriam impopulares. No entanto, menosprezando a reação às mesmas, chegou a afirmar que o número de manifestantes contra seu governo ficaria entre 40 a 100 pessoas.
            O último domingo mostrou que o presidente estava equivocado. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra o seu governo e engrossar o movimento que já ficou cunhado de “Fora Temer”. Só na capital paulista, estima-se que foi 100 mil o número de pessoas que se manifestaram pedindo a saída de Temer e a convocação de novas eleições como garantia da manutenção da ordem democrática.
            Infelizmente, foi nessa cidade em que a manifestação terminou com violência, aparentemente iniciada pelo despreparo da Polícia Militar. O jornalista Luis Nassif, em publicação no site do jornal GGN, diz que a manifestação pacífica contra Michel Temer terminou em pancadaria quando policiais militares começaram a expulsar as pessoas que queriam adentrar á estação do Metrô, cercada por PMs sob “a gestão truculenta de Geraldo Alckmin”(http://jornalggn.com.br/noticia/a-repressao-da-pm-e-a-criacao-da-nova-geracao-politica). O jornal “O Estado de São Paulo” publicou, em reticente nota, que “O ato começou no domingo, 4, à tarde, na Avenida Paulista, região central, e foi dispersado à noite pela Polícia Militar com o uso de bombas e jato d’água depois de um princípio de tumulto no Largo da Batata, na zona oeste. Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), nove manifestantes foram detidos” (http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ato-pelo-fora-temer-se-concentra-na-av-paulista,10000074031).
            As mídias alternativas apresentam imagens que aparentam exagero na ação da Polícia Militar de São Paulo, que, em tese, nem deveria ter agido dessa forma tendo em vista que deveria salvaguardar o direito constitucional – já que ainda estamos dentro de um Estado democrático de direitos – de se expressar e se manifestar pacificamente. A coleção de resultados negativos da ação da PM de São Paulo, durante a semana, coloca em dúvida se a corporação foi devidamente preparada para lidar com esse tipo de situação. A pergunta sobressai quando os veículos de comunicação informam que apenas em São Paulo as manifestações terminaram com violência.
            De outro lado, há a remota possibilidade de que algum grupo, dentre a centena de milhares de pessoas que ganharam as ruas da capital no domingo, tivesse provocado o tumulto. Ainda assim é de se perguntar se a ação da PM foi proporcional à situação que enfrentou. O uso de bombas de gás e balas de borracha, como atestam vários veículos de comunicação, foi realmente necessário e imprescindível naquele momento?
            O que se espera é que os fatos sejam devidamente apurados e que a sociedade tenha uma resposta plausível sobre tais acontecimentos. Se a violência partiu da tropa da Polícia Militar, que os culpados sejam julgados e punidos de acordo com a lei. O mesmo vale para quem tenha comprovadamente cometido qualquer crime naquele ato. Afinal, o rigor da legislação é para todos.
            Enquanto os fatos não são devidamente apurados, ficamos ouvindo os ecos das histórias que nos chegam a todo o momento pelos mais diversos meios: televisão, rádio, internet, whatsapp, jornal, redes sociais...
            Como em todas as histórias, há a versão do lobo e a versão dos porquinhos. Qual é a mais convincente?


Carlos Carvalho Cavalheiro

05.09.2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O prefeito e os cortes na Cultura

 Foto: Carlos Carvalho Cavalheiro

                Lamentável. Essa é a única palavra que ocorre nesse momento para definir o sentimento em relação aos cortes anunciados pelo Prefeito Pannunzio e que atingem diversos setores, entre eles o Esporte e a Cultura. Em sua defesa, o prefeito argumentou que estava em vias de “infringir a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) ao gastar mais do que arrecada” (CRUZEIRO DO SUL, 10 ago 2016).
                Além disso, informou que “tanto o governo federal como o governo do Estado são devedores do município, [e] não estão honrando os compromissos assumidos” (Ibidem). Com isso, pretende-se que o dinheiro destinado à Cultura e ao Esporte seja destinado a outros setores como a Saúde. Pois bem, o argumento é válido e é óbvio que se passasse pelo crivo de uma pesquisa popular, um plebiscito, não haveria quem se dispusesse a contra-argumentar que os recursos públicos deveriam atender prioritariamente à Saúde. O argumento é consistente, é forte.
                Por outro lado, há questões que merecem uma atenção mais crítica. A primeira delas é em relação ao tempo em que o prefeito decidiu-se para tomar as “medidas impopulares”. A Lei de Incentivo à Cultura e o Prêmio Sorocaba de Literatura, por exemplo, ambos amplamente escorados em Leis Municipais, já haviam iniciado o seu processo seletivo. Pior, já estavam em fase de finalização. Ocorre que, tanto para um como para o outro caso, há por parte dos artistas todo um preparo, gastos e desgastes, correrias e pré-requisitos que têm de ser cumpridos para que se possa fazer jus a ambos. No caso do Prêmio de Literatura, por exemplo, antecipadamente, como pré-requisito da inscrição, o autor deve doar três exemplares do livro – alvo do processo de seleção – para o acervo das Bibliotecas Públicas. Isso foi feito. No caso da LINC, houve gastos com toda a documentação e todo o processo de formatação dos projetos. Além disso, salvo engano, a porcentagem destinada para custeio dos processos de avaliação e serviços administrativos, na ordem de 10% do orçamento total (o que corresponde a R$ 90 mil ) já foram gastos. Em suma, não era esse o momento de se suspender os recursos da LINC, do Prêmio de Literatura e outros. Até porque, o ônus de tal atitude é o descrédito em relação ao Poder Público, pois, ao menos em aparência, promete algo (abre o processo de seleção) e não o cumpre. Afinal, o argumento dado não era exatamente o fato de não se poder descumprir a Legislação vigente?
                Outro fato que pesa contra essa atitude é o argumento de que o governo federal e o estadual não estão cumprindo com os seus deveres. Pelo que consta, ambos o governo federal é aliado do PSDB. O estadual é do mesmo partido do municipal! É questão de “fogo amigo”? Quão amigo é esse “fogo”? Ora, não é o caso de se ingressar com Ação judicial contra o descumprimento dos compromissos assumidos por esses governos? Não havia como prever, com antecipação adequada, que o descumprimento desses governos acarretaria problemas no orçamento do município? Por que não?
                Por fim, é importante salientar que o problema na arrecadação e na área da Saúde não é recente. Há tempos que os reclamos da população em relação ao atendimento da Saúde vêm pautando a atuação nessa área. Por que somente agora é que se pensou em “solucioná-los”? Aliás, em termos exatos, o que desses cortes será de fato destinado à área da Saúde? Seria bom que soubéssemos a fim de acompanharmos pari passu tais investimentos. Também é fato que numa cidade onde haja mais investimento em cultura e em esporte (além da educação) a necessidade de investimentos em Saúde é bem menor. Por outro lado, com relação à redução da arrecadação, os cortes somente pioram a situação. Somente a LINC e o Prêmio Sorocaba de Literatura – para não citar outros como o Prêmio de Música – movimentam o comércio e a prestação de serviços, ampliando demasiadamente a arrecadação. Enfim, resta apenas a esperança de que venham dias melhores e que talvez apareça algum “mecenas” (quem sabe um consórcio de industriais e comerciantes) que consigam ainda salvar essa situação.

Carlos Carvalho Cavalheiro

15.08.2016

domingo, 7 de agosto de 2016

Mais um cowboy que se foi...

Fonte da imagem: http://br.ign.com/cinema-tv/30002/news/ator-bud-spencer-morre-aos-86-anos

          Há três anos um acidente de carro pôs fim à vida de Giuliano Gemma, ator que ficou mundialmente conhecido por participar de filmes italianos de faroeste, ou seja, os westerns spaghettis como também eram chamados. O gênero tomou corpo quando o diretor italiano Sérgio Leone teve a idéia de contar suas fábulas ambientadas no velho oeste estadunidense em meados da década de 1960.
          No início, tanto os diretores quanto os atores utilizavam nomes em inglês, uma forma de tornar “palatável” os filmes para o público radicalmente exigente. Assim, Giuliano foi apresentado no começo da carreira como Montgomery Wood e só usou o próprio nome quando sua carreira se consolidou e não havia mais nada a provar para ninguém. O mesmo ocorreu com Gian Maria Volonté que teve seu nome mudado para Johnny Wels. O brasileiro Antonio de Teffé era conhecido como Anthony Steffen, Mario Girotti ainda é conhecido como Terence Hill e até o diretor Sérgio Leone teve de assinar seu primeiro faroeste como Bob Robertson. O filme, “Por um punhado de dólares” (1964), inspirado no filme japonês Yojimbo, deu o pontapé para que esse gênero cinematográfico se alastrasse pelo mundo e ajudou a consolidar as carreiras de atores como Clint Eastwood e Gian Maria Volonté.
          No começo desta semana outro dos “cowboys” italianos nos deixou. Carlo Pedersoli, ou Bud Spencer, pseudônimo pelo qual se tornou famoso, faleceu na segunda-feira, dia 27 de junho de 2016, em Roma (Itália), aos 86 anos de idade. A sua morte esvazia o rol de atores vivos daquela época. Restam poucos atores vivos de destaque que participaram dessa História: Clint Eastwood, Terence Hill e Franco Nero são alguns desses nomes.
          Bud Spencer tornou-se célebre ao se tornar parceiro de Terence Hill em filmes que valorizavam o humor e a pancadaria no Velho Oeste. Com corpo avantajado, a presença de Bud Spencer nos filmes deixava claro que seus inimigos não teriam chance nas brigas. Reza a lenda que o ator escolheu o nome baseado em duas referências:  Bud teria vindo de Budweiser, a cerveja predileta dele, e Spencer seria uma homenagem ao ator Spencer Tracy.
          Além de estrelar a dupla com Terence Hill, o ator Bud Spencer participou de outros filmes de faroeste como “O Exército de 5 homens” e “Deus perdoa... eu não”.  Spencer viveu alguns anos no Brasil, trabalhando pelo consulado italiano, oportunidade em que aprendeu a falar português. Em entrevista realizada no início da década de 1980 no programa “Os Trapalhões”, Bud Spencer conversou em português com Renato Aragão e sua turma.
          Bud Spencer fez ainda filmes de ação/comédia com Terence Hill, dos quais se destaca “Dois Super-Tiras em Miami” (1985) e “Banana Joe” (1982). Em 1994 voltou ao tema do faroeste com o filme “Os encrenqueiros”, uma revisita aos tempos de Trinity. O ator nasceu em 31 de outubro de 1929, em Nápoles, Itália. De acordo com seu filho, em comunicado à imprensa, “Papai se foi pacificamente, às 18h15. Ele não sofreu, estávamos todos ao seu lado e sua última palavra foi 'obrigado'". Bendita a vida que se finda em agradecimento. Sorte nossa, também, que conhecemos – e rimos e nos emocionamos – com a atuação desse grande artista. O céu está estrelado... São estrelas de xerifes do Velho Oeste... Ou balas de prata cuspidas dos revólveres dos anti-heróis, característica máxima dos westerns spaghettis.

Carlos Carvalho Cavalheiro

28.06.2016