[Porto Feliz: Muito além das Monções]
Na Chácara dos Pelegrinis existem
sacis. Sim, Saci-Pererê, aquele de uma perna só, barrete vermelho e cachimbo na
boca. E de verdade mesmo... Não é estátua, não é “pegadinha” e nem lorota. A
Chácara da família Pelegrini fica na Vila Progresso e quem me contou a história
do Saci foi o Valdemar Pelegrini.
Quando Valdemar era pequeno, o seu
avô já o advertira do Saci que rondava pelas cercanias. De fato, ainda há na
propriedade um vasto bambuzal e todos sabem que Saci nasce do gomo do bambu.
Ocorre que a gleba possuía também um invejável pomar que era alvo da criançada
que se lambuzava com goiabas, jabuticabas, mangas e tantas outras frutas. Isso
sem contar com as uvas, produção que existe até hoje e que proporciona a
fabricação artesanal de vinho de qualidade... Mas isso é assunto para depois. O
caso agora é do Saci.
Pois bem, ninguém dava atenção ao
que dizia o senhor Guglielmo, avô do Valdemar, acerca do Saci que rondava a
propriedade. Todos achavam que era história do homem para espantar a criançada
que roubava as frutas do pomar. Até que uma noite, dessas de lua cheia que
dispensa a iluminação pública, um bando de garotos saiu para colher frutas da
Chácara. No meio da atividade, se depararam com um estranho ser que os
acompanhava com olhos vidrados. Era um crescido Saci-Pererê... Foi uma gritaria
só e em desabalada carreira a molecada fugiu deixando caídas ao chão as frutas
que tinham colhido. A partir daí todos acreditaram na história do Saci. A
história ganhou a cidade e ninguém ousou mais adentrar a Chácara para colher os
frutos dos pés. Quando Valdemar Pelegrini se tornou adulto, verificou que o
Saci ainda vivia naquela propriedade. Se se trata do mesmo, não se sabe.
Afinal, dizem, o Saci vive 77 anos... Poderia ser o mesmo, bem como há a
possibilidade de haver muitos outros sacis que estão proliferando naqueles
bambuzais... Fica aqui o alerta: o corte ou extinção do bambu poderá acarretar
o fim de uma das últimas espécies de Saci que ainda existe em Porto Feliz.
A primeira pessoa que chamou a minha
atenção para os Sacis da Chácara dos Pelegirnis foi o ex-prefeito e professor
de História Cláudio Maffei. Lá pelos idos de 2006 ou 2007 ele me contou essa
história e da produção artesanal de vinho do Valdemar. Por desencontros, só vim
a conhecer o Valdemar Pelegrini, pessoalmente, neste ano. Aliás, faz pouco
tempo: foi no dia 30 de novembro de 2014. Nessa ocasião o Pelegrini
confidenciou que ainda realiza expedições noturnas com as crianças da família
para tentar observar o Saci. Fiquei aliviado com o fato deles não tentarem
“caçar” o espevitado perneta, eis que sou membro da Sociedade dos Observadores
de Saci (SOSACI) e tenho por conduta apenas observar in loco a criatura, desprezando, portanto, as cruéis capturas que
se realizam com peneiras ou rosários benzidos.
Bom, dito tudo isso, creio que chegou a hora
de falar um pouco sobre as uvas e o vinho. Há uvas de várias espécies que são
produzidas nessa Chácara. Há uvas Seibel e Seibel 2, por exemplo, que segundo a
Wikipedia referem-se a “castas de uva criadas pelo médico e vitivinicultor
Albert Seibel no fim do século XIX, na França, a partir de castas europeias e
americanas”. Ainda segundo essa Enciclopédia eletrônica, com essas uvas pode se
produzir vinhos saborosos. No entanto, Valdemar Pelegrini utiliza
preferencialmente para a produção de vinho uvas que cultiva a partir de novas
variedades desenvolvidas no Instituto Agronômico de Campinas, em parceria com o
pesquisador José Luiz Hernandes, que em determinados momentos lança novas
variedades híbridas a essa finalidade. O processo de produção não utiliza
adubos químicos ou defensivos organoclorados, resultando assim em uma qualidade
próxima a excelência. Uvas saborosas, vinhos de qualidade.
Valdemar é advogado e possui um escritório em
Campinas. Somente nos finais de semana é que se dedica à produção da uva e do
vinho, uma tradição que está em sua família há décadas. Uma curiosidade é o
rótulo desenvolvido para o Vinho Pelegrini: uma composição do brasão da cidade
com as origens italianas da família Pelegrini e com a tradição da produção
artesanal do vinho. Expressão de amor e gratidão pela cidade.
Na próxima edição falaremos mais sobre o
vinho e a família Pelegrini.
[Continua]
Carlos
Carvalho Cavalheiro
28.12.2014
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